Christian Petzold | três tentativas de entender um novo cineasta

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Assim como muitos cinéfilos, Barbara foi meu primeiro contato com o cinema do alemão Christian Petzold. É seu primeiro longa-metragem a entrar em cartaz no circuito e também o primeiro exibido durante a Mostra SP. Por isso parte da comunidade cinéfila reagiu ao filme como o surgimento de um novo cineasta. Mas decidi saber mais sobre ele e descobri que Petzold já tem uma carreira sólida: começou a fazer filmes para a TV nos anos 90; seu primeiro filme para o cinema – Die innere Sicherheit – estreou em 2000.

Atualmente ele tem 11 longas no currículo e é considerado informalmente o líder da “Escola de Berlim”. Uma etiqueta um tanto preguiçosa (nem todos são de Berlim, por exemplo) aplicada a uma geração de cineastas que inclui nomes como Christoph Hochhäusler, Maren Ade e Ulrich Köhler, todos autores de filmes dignos em algum grau de atenção. Além de Barbara, vi mais dois filmes de Petzold. Este artigo é uma tentativa de organizar algumas idéias sobre o cineasta e apontar o que há de interessante nele.

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Fantasmas (2005)

Fantasmas se divide em duas narrativas paralelas. Na primeira, uma garota retraída que mora num abrigo para menores descobre o amor e a rebeldia com outra garota, a quem salvou de ser atacada por rapazes num parque. Na segunda, uma mulher assombrada pelo sumiço da filha pequena, sequestrada anos atrás. O cenário é uma Berlim fantasma, de ruas e espaços quase sempre vazios. Todos os personagens perambulam pela cidade em planos que lembram os travellings de Gus Van Sant. São como almas penadas vagando em busca daquilo que as tornarão vivas novamente: o amor. Seja o amor da garota desejada, ou o de uma mãe, ou de uma filha. A câmera de Petzold filma tudo com frieza e por vezes o cineasta exagera na opacidade de personagens e situações. O filme dá a sensação de que algumas coisas poderiam ter sido melhor desenvolvidas. É mais interessante como um rascunho de idéias para filmes posteriores.

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Jericó (2008)

Trata-se uma adaptação bastante particular de O Destino Bate à Sua Porta, o romance de James M. Cain adaptado diversas vezes para ao cinema. A frieza das situações persiste aqui, e a encenação é ainda mais despojada de artifícios, apesar da beleza de diversos planos. Desta vez os fantasmas são os amantes, que só se sentem vivos em seus momentos de paixão. Mas que não podem assumir a relação pela precariedade financeira de ambos. “Você não pode amar sem dinheiro” é a citação memorável do filme. De fato, a ênfase está (na falta de) dinheiro dos personagens, e Petzold filma com algum interesse o funcionamento dos negócios do marido corno. Ele é o verdadeiro centro dramático de Jericó, um imigrante grego iludido pelo ideal de sucesso do capitalismo. Empresário de sucesso, casado com uma loira pela qual praticamente comprou, ele acredita com alguma sinceridade no amor da esposa e na amizade de seu funcionário. Sua tragédia é que a realidade não bate com suas ilusões.

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Barbara (2012)

Barbara é uma médica que vive, trabalha e planeja uma fuga da Alemanha Oriental em 1980. E é o mais emotivo dos filmes de Christian Petzold. Se os personagens agem de forma fria é porque o regime em que vivem assim exige: todos têm consciência de que vigiam e são vigiados. Como os críticos Filipe Furtado e Bruno Cursini já apontaram, o filme não tem nenhum dos fetiches típicos de “filmes de vigilância”. A paranóia e a opressão estão nos olhares e na linguagem corporal dos atores. Mas aos poucos, sempre que possível, os verdadeiros pensamentos e sentimentos deles afloram. Com isso Barbara joga uma nova luz em seus filmes anteriores. Aos olhos de Petzold, o que vale para a Alemanha antes da queda do muro vale, por motivos diferentes, para a Alemanha depois da queda: uma sociedade que sufoca a humanidade de seus integrantes.