Oscar 2013 | considerações sobre os filmes e apenas os filmes

Estamos na época do Oscar. Mas não se preocupem, este post não comenta quem vai ganhar ou quem merece ganhar o prêmio. Nem sequer assisto a entrega, menos por uma questão ideológica do que por preferir dormir cedo e ter uma boa noite de sono. Mas os filmes estão aí em cartaz, para serem vistos e discutidos. O post reúne meus comentários sobre alguns dos filmes indicados em alguma categoria.

Amor, de Michael Haneke.

Apesar da mise-en-scène dos filmes de Michael Haneke ser lembrada por seu rigor e precisão cerebral, contraditoriamente o cineasta sempre usou essa forma para provocar sensações fortes e de mal-estar no espectador. Em Amor não é diferente. Os protagonistas são o casal de velhinhos que grande parte do público-alvo deste filme gostaria de ser: cultos e gentis. Só ouvem música clássica, moram num apartamento abarrotado de livros, e o marido nunca erra ou perde a paciência (minto: em exatamente uma cena ele trata uma enfermeira de forma injusta). Cena a cena o interesse está em ver a deterioração física e mental dela (sim, é um exploitation de arte) e a dedicação inabalável dele. Depois de uns 3/4 de filme um dos vizinhos parabeniza protagonista “pelo modo como enfrenta a situação”. Como se o espectador já não tivesse chegado a essa conclusão sozinho. Haneke já foi bom, ruim, e até vil, mas nunca tinha sido tão rasteiro.

Argo, de Ben Affleck.

Argo é um exemplo perfeito da Escola George Clooney de Cinema Político Mas Popular. Você dificilmente encontrará outra grande produção americana tão sinceramente preocupada em retratar – em nuances nada maniqueístas – a situação política e social do Irã. De brinde, piadinhas divertidas sobre as futilidades de Hollywood. Na verdade o projeto do filme é mesmo excelente. Simplesmente falta a Ben Affleck uma inspiração maior como cineasta. As situações e personagens não têm o esmero necessário para irem além do óbvio e do funcional. Um filme esperto, mas ligeiro demais.

As Aventuras de Pi, de Ang Lee.

Ang Lee sempre foi um cineasta de meio-termo: preocupado com “grandes questões” e ao mesmo tempo em fazer o público embarcar nelas (com concessões, se necessário). As Aventuras de Pi é uma continuação dessas preocupações, pois Pi é um personagem que assim como Lee olha as coisas, as paisagens, os animais, o mundo, e tenta entender o significado – religioso até – por trás delas. Não acho que o filme seja bem-sucedido em ver e encontrar esses significados profundos todos. Mas restou o prazer da superfície: a beleza plástica das imagens após o naufrágio, a interação com o tigre digital, etc. Eu me diverti.

Django Livre, de Quentin Tarantino.

Um Tarantino irregular, sem dúvida, mas nada desprezível. O filme demora a engrenar porque ele é um cineasta maneirista demais para que sua tentativa de compor um western clássico (ou mesmo spaghetti) genuíno funcione. Já o desfecho é especialmente sem imaginação. Mas entre esses extremos há muita coisa interessante. Por exemplo, se há um aspecto realmente subversivo é o alemão mentor de Django, o supostamente civilizado Schultz (interpretado por Christoph Waltz, portanto sendo o duplo do também supostamente civilizado Hans Landa). Em certo momento Schultz se deixa levar por uma inconsciente culpa pela escravidão, que se revela idiota, pois arrisca desnecessariamente sua vida e de seu pupilo. Tarantino entende que a culpa dele, branca e europeia, é insignificante para uma causa que não lhe diz respeito. Suas dores de consciência são pequenas comparadas às cicatrizes nas costas dos escravos.

O Lado Bom da Vida, de David O. Russell.

É o Pequena Miss Sunshine deste ano: encenação tosca, sutileza de elefante, humor à fórceps, e o elenco simpático (especialmente Jennifer Lawrence) empurrando tudo. Parte do humor do filme está no quanto o protagonista bipolar é incapaz de perceber que é um sujeito inconveniente ou mesmo assustador. Ou seja, rimos do personagem e não com ele. Mas não se preocupem com o rapaz, pois ele encontrará o amor, a felicidade e a normalidade num concurso de dança. Entre o drama de Sundance e a comédia romântica de multiplex, não resta quase nada no filme que não seja fórmula.

Lincoln, de Steven Spielberg.

O material do filme é dos mais interessantes: o roteiro focaliza as manobras políticas nem sempre honestas do presidente Abraham Lincoln para garantir o mais nobre dos objetivos, o fim da escravidão. Spielberg opta pela sobriedade, mas comete a equivocada decisão de cortar de seu filme tudo que possa dar qualquer tipo de prazer estético. Não sobra quase nada de vivo e espontâneo de sua lição de cidadania. Como se quisesse evitar a acusação de que não é um cineasta sério. Mesmo assim, lá está o herói bom, sábio e justo; a trilha sonora quadrada inserida nos momentos óbvios; etc. Culmina numa sequência constrangedora, de closes em cada um dos congressistas, e o suspense vagabundo de “será que vão votar na emenda?”. Ou seja, um Spielberg “sóbrio”, mas com as muletas de sempre.

O Mestre, de Paul Thomas Anderson.

Acho curioso os fãs do cineasta que encaram este filme aqui como uma obra-prima, pois me parece um trabalho deliberadamente inconsistente, irregular, e até de improviso. O Mestre conta com três atuações geniais (Phoenix, Hoffman, Adams), cenas inesquecíveis… e uma dificuldade grande em interligá-las. Não estou cobrando um enredo coerente ou algo assim. Ao contrário, em seus melhores momentos ele se perde junto com os personagens e suas loucuras. Boa parte da beleza do filme está no inesperado de suas ações e reações (e onde PTA irá pôr sua câmera a seguir). São justamente as sequências mais discursivas, que tentam dar coerência ao longa, as mais desinteressantes, pois apenas batem nas mesmas teclas: o choque da liberdade instintiva de Phoenix com os métodos do mestre. Um filme desigual, no bom e no mau sentido, mas principalmente no bom.