Kathryn Bigelow | a cineasta de A Hora Mais Escura

A Hora Mais Escura

O polêmico A Hora Mais Escura, atualmente em cartaz nos cinemas, é um relato sobre a perseguição e morte de Osama Bin Laden. Foi dirigido por Kathryn Bigelow, cuja carreira como cineasta começou no princípio dos anos 80. Uma carreira incomum para uma mulher, pois se especializou em gêneros pouco consagrados pela crítica “de arte”: filmes de ação, suspense, policial e horror. Um cinema distante do prestígio de festivais de cineastas celebradas como Lucrecia Martel, Catherine Breillat, Jane Campion, Claire Denis (todas capazes de filmes perturbadores quando querem).

Sem dúvida, Bigelow faz filmes fascinados por violência. Mas um olhar atento sobre seus melhores trabalhos revela talento não só para filmar cenas de ação e suspense, mas também para implicar o espectador neste mesmo fascínio, e também no comportamento estúpido e destrutivo de seus protagonistas. Afinal, seus heróis viciados em perigo (uma constante na carreira dela) estão apenas espelhando os desejos do espectador que vai ver filmes de ação e suspense. Kathryn Bigelow sempre teve talento, mas agora com seus dois últimos filmes, Guerra ao Terror e A Hora Mais Escura, parece ter dado um salto em ambição.

Quando Chega a Escuridão, 1987

Um misto de horror de vampiros, contos de fadas, e western contemporâneo. Não tem personagens memoráveis nem um roteiro criativo (a luz do Sol aqui é bem camarada com o herói). Mas duas coisas funcionam muito bem: 1) a violência simples e direta dos vampiros, como no impressionante massacre no bar. Ajuda a manter a tensão no filme e passar a idéia de que aquela família de sanguessugas está disposta a qualquer coisa para sobreviver; 2) a atmosfera do filme, cortesia de uma belíssima fotografia de planos diurnos e noturnos simultaneamente belos e sinistros (certamente a intenção da cineasta e do fotógrafo Adam Greenberg). Não é um filme forte em idéias, mas certamente é forte em imagens e sons.

Caçadores de Emoção, 1991

Um dos melhores trabalhos de Kathryn Bigelow, mas muito subestimado inclusive pelos fãs. O roteiro talvez seja rotineiro (mas nem tanto; o final é de uma ambigüidade notável), mas Bigelow compensa com algumas das melhores cenas de ação que fez, incluindo o que deve ser a melhor cena de perseguição a pé do cinema. O conflito principal é típico da cineasta: um policial que se infiltra numa comunidade de surfistas (na verdade perigosos assaltantes de bancos). Portanto, ele se sente divido entre o estilo de vida mais livre de seus novos amigos e a caretice da polícia. Talvez não pertença a nenhum dos grupos. Já os surfistas bandidos são retratados como viciados em adrenalina, com pouca consideração pelas vidas dos outros. No fim do filme o policial não parece perceber que uma vida na prisão é mesmo o pior castigo possível para o vilão. Ou talvez sinta inveja dele por realizar seus sonhos. Um filme notável que merece ser levado mais a sério.

Estranhos Prazeres, 1995

Ficção científica um tanto fajuta, pois não vai além de imaginar a Los Angeles do futuro como um vulcão étnico pós-Rodney King. Certamente as cenas sobre a questão racial/policial estão entre as coisas mais mão pesada que Bigelow filmou. Já o roteiro (de James Cameron) tem a proeza de ser tanto previsível demais quanto complicado em excesso (eis um filme com 30 minutos a mais do que deveria). Em compensação, Ralph Fiennes e Angela Bassett estão muito bem, com um material acima da média no gênero. Ele é um traficante de memórias alheias e a maneira como a cineasta costura essas lembranças na narrativa para revelar informações e criar tensão é engenhosa. Esses flashbacks são quase todos fantasias de violência desconfortáveis de assistir, que funcionam como válvula de escape e simulacro de vida real, um comentário sobre o próprio cinema.

Guerra ao Terror, 2008

O melhor filme já feito sobre a guerra no Iraque; especificamente sobre como é estar lá, lutar lá, e sentir o calor do deserto. Passa muito bem a idéia dos riscos e da alienação dos soldados naquele país, convivendo com civis que não compreendem e desconfiam (e o sentimento deles é recíproco). O trio de personagens principais forma uma unidade de desarmamento de bombas; a cena de abertura é perfeita ao estabelecer o tamanho literal da encrenca. Praticamente TODAS as seqüências de Guerra ao Terror são o trio em alguma arriscada missão de desarmamento, com poucas cenas intercalando a ação. A cineasta leva aqui seu projeto de filmar grupos ou comunidades viciadas em situações de alto risco o mais longe possível. Se existe um discurso anti-guerra no filme ele está na alegria de Jeremy Renner quando ele escolhe continuar desarmando bombas ao tédio da vida doméstica nos EUA. Se a guerra fez isto com ele, ou se já nasceu assim, o filme deixa em aberto. Sem dúvida a obra-prima de Kathryn Bigelow.

A Hora Mais Escura, 2012

O filme sobre a caçada a Osama Bin Laden é tão preocupado em filmar “fatos” (se reais é outra discussão) e situações concretas, que ele paradoxalmente atinge a abstração. Contudo, uma cena parece esclarecer as intenções de Bigelow: os agentes da CIA discutindo a investigação enquanto numa TV ao fundo o Presidente Obama garante que os EUA não torturam. A intenção de Bigelow em A Hora Mais Escura é mostrar as coisas que o discurso oficial não mostra, a escuridão dos escritórios e dos esconderijos de terroristas. Na seqüência de ataque a Bin Laden os soldados celebram mais terem encontrado computadores no esconderijo do que terem matado o terrorista mais perigoso do mundo; na guerra ao terror não há espaço para seres humanos. Incluindo os personagens: nada sabemos da agente da CIA interpretada por Jessica Chastain, a não ser leves indícios de uma personalidade frágil que evolui para um comportamento anti-social. Ela termina o filme em lágrimas porque finalmente percebe que é mais sombra do que carne e osso (como todos no filme, aliás). Um filme imperfeito, mas especial.

Oscar 2013 | considerações sobre os filmes e apenas os filmes

Estamos na época do Oscar. Mas não se preocupem, este post não comenta quem vai ganhar ou quem merece ganhar o prêmio. Nem sequer assisto a entrega, menos por uma questão ideológica do que por preferir dormir cedo e ter uma boa noite de sono. Mas os filmes estão aí em cartaz, para serem vistos e discutidos. O post reúne meus comentários sobre alguns dos filmes indicados em alguma categoria.

Amor, de Michael Haneke.

Apesar da mise-en-scène dos filmes de Michael Haneke ser lembrada por seu rigor e precisão cerebral, contraditoriamente o cineasta sempre usou essa forma para provocar sensações fortes e de mal-estar no espectador. Em Amor não é diferente. Os protagonistas são o casal de velhinhos que grande parte do público-alvo deste filme gostaria de ser: cultos e gentis. Só ouvem música clássica, moram num apartamento abarrotado de livros, e o marido nunca erra ou perde a paciência (minto: em exatamente uma cena ele trata uma enfermeira de forma injusta). Cena a cena o interesse está em ver a deterioração física e mental dela (sim, é um exploitation de arte) e a dedicação inabalável dele. Depois de uns 3/4 de filme um dos vizinhos parabeniza protagonista “pelo modo como enfrenta a situação”. Como se o espectador já não tivesse chegado a essa conclusão sozinho. Haneke já foi bom, ruim, e até vil, mas nunca tinha sido tão rasteiro.

Argo, de Ben Affleck.

Argo é um exemplo perfeito da Escola George Clooney de Cinema Político Mas Popular. Você dificilmente encontrará outra grande produção americana tão sinceramente preocupada em retratar – em nuances nada maniqueístas – a situação política e social do Irã. De brinde, piadinhas divertidas sobre as futilidades de Hollywood. Na verdade o projeto do filme é mesmo excelente. Simplesmente falta a Ben Affleck uma inspiração maior como cineasta. As situações e personagens não têm o esmero necessário para irem além do óbvio e do funcional. Um filme esperto, mas ligeiro demais.

As Aventuras de Pi, de Ang Lee.

Ang Lee sempre foi um cineasta de meio-termo: preocupado com “grandes questões” e ao mesmo tempo em fazer o público embarcar nelas (com concessões, se necessário). As Aventuras de Pi é uma continuação dessas preocupações, pois Pi é um personagem que assim como Lee olha as coisas, as paisagens, os animais, o mundo, e tenta entender o significado – religioso até – por trás delas. Não acho que o filme seja bem-sucedido em ver e encontrar esses significados profundos todos. Mas restou o prazer da superfície: a beleza plástica das imagens após o naufrágio, a interação com o tigre digital, etc. Eu me diverti.

Django Livre, de Quentin Tarantino.

Um Tarantino irregular, sem dúvida, mas nada desprezível. O filme demora a engrenar porque ele é um cineasta maneirista demais para que sua tentativa de compor um western clássico (ou mesmo spaghetti) genuíno funcione. Já o desfecho é especialmente sem imaginação. Mas entre esses extremos há muita coisa interessante. Por exemplo, se há um aspecto realmente subversivo é o alemão mentor de Django, o supostamente civilizado Schultz (interpretado por Christoph Waltz, portanto sendo o duplo do também supostamente civilizado Hans Landa). Em certo momento Schultz se deixa levar por uma inconsciente culpa pela escravidão, que se revela idiota, pois arrisca desnecessariamente sua vida e de seu pupilo. Tarantino entende que a culpa dele, branca e europeia, é insignificante para uma causa que não lhe diz respeito. Suas dores de consciência são pequenas comparadas às cicatrizes nas costas dos escravos.

O Lado Bom da Vida, de David O. Russell.

É o Pequena Miss Sunshine deste ano: encenação tosca, sutileza de elefante, humor à fórceps, e o elenco simpático (especialmente Jennifer Lawrence) empurrando tudo. Parte do humor do filme está no quanto o protagonista bipolar é incapaz de perceber que é um sujeito inconveniente ou mesmo assustador. Ou seja, rimos do personagem e não com ele. Mas não se preocupem com o rapaz, pois ele encontrará o amor, a felicidade e a normalidade num concurso de dança. Entre o drama de Sundance e a comédia romântica de multiplex, não resta quase nada no filme que não seja fórmula.

Lincoln, de Steven Spielberg.

O material do filme é dos mais interessantes: o roteiro focaliza as manobras políticas nem sempre honestas do presidente Abraham Lincoln para garantir o mais nobre dos objetivos, o fim da escravidão. Spielberg opta pela sobriedade, mas comete a equivocada decisão de cortar de seu filme tudo que possa dar qualquer tipo de prazer estético. Não sobra quase nada de vivo e espontâneo de sua lição de cidadania. Como se quisesse evitar a acusação de que não é um cineasta sério. Mesmo assim, lá está o herói bom, sábio e justo; a trilha sonora quadrada inserida nos momentos óbvios; etc. Culmina numa sequência constrangedora, de closes em cada um dos congressistas, e o suspense vagabundo de “será que vão votar na emenda?”. Ou seja, um Spielberg “sóbrio”, mas com as muletas de sempre.

O Mestre, de Paul Thomas Anderson.

Acho curioso os fãs do cineasta que encaram este filme aqui como uma obra-prima, pois me parece um trabalho deliberadamente inconsistente, irregular, e até de improviso. O Mestre conta com três atuações geniais (Phoenix, Hoffman, Adams), cenas inesquecíveis… e uma dificuldade grande em interligá-las. Não estou cobrando um enredo coerente ou algo assim. Ao contrário, em seus melhores momentos ele se perde junto com os personagens e suas loucuras. Boa parte da beleza do filme está no inesperado de suas ações e reações (e onde PTA irá pôr sua câmera a seguir). São justamente as sequências mais discursivas, que tentam dar coerência ao longa, as mais desinteressantes, pois apenas batem nas mesmas teclas: o choque da liberdade instintiva de Phoenix com os métodos do mestre. Um filme desigual, no bom e no mau sentido, mas principalmente no bom.

Christian Petzold | três tentativas de entender um novo cineasta

Barbara 2

Assim como muitos cinéfilos, Barbara foi meu primeiro contato com o cinema do alemão Christian Petzold. É seu primeiro longa-metragem a entrar em cartaz no circuito e também o primeiro exibido durante a Mostra SP. Por isso parte da comunidade cinéfila reagiu ao filme como o surgimento de um novo cineasta. Mas decidi saber mais sobre ele e descobri que Petzold já tem uma carreira sólida: começou a fazer filmes para a TV nos anos 90; seu primeiro filme para o cinema – Die innere Sicherheit – estreou em 2000.

Atualmente ele tem 11 longas no currículo e é considerado informalmente o líder da “Escola de Berlim”. Uma etiqueta um tanto preguiçosa (nem todos são de Berlim, por exemplo) aplicada a uma geração de cineastas que inclui nomes como Christoph Hochhäusler, Maren Ade e Ulrich Köhler, todos autores de filmes dignos em algum grau de atenção. Além de Barbara, vi mais dois filmes de Petzold. Este artigo é uma tentativa de organizar algumas idéias sobre o cineasta e apontar o que há de interessante nele.

Fantasmas 1

Fantasmas (2005)

Fantasmas se divide em duas narrativas paralelas. Na primeira, uma garota retraída que mora num abrigo para menores descobre o amor e a rebeldia com outra garota, a quem salvou de ser atacada por rapazes num parque. Na segunda, uma mulher assombrada pelo sumiço da filha pequena, sequestrada anos atrás. O cenário é uma Berlim fantasma, de ruas e espaços quase sempre vazios. Todos os personagens perambulam pela cidade em planos que lembram os travellings de Gus Van Sant. São como almas penadas vagando em busca daquilo que as tornarão vivas novamente: o amor. Seja o amor da garota desejada, ou o de uma mãe, ou de uma filha. A câmera de Petzold filma tudo com frieza e por vezes o cineasta exagera na opacidade de personagens e situações. O filme dá a sensação de que algumas coisas poderiam ter sido melhor desenvolvidas. É mais interessante como um rascunho de idéias para filmes posteriores.

Jerichow3

Jericó (2008)

Trata-se uma adaptação bastante particular de O Destino Bate à Sua Porta, o romance de James M. Cain adaptado diversas vezes para ao cinema. A frieza das situações persiste aqui, e a encenação é ainda mais despojada de artifícios, apesar da beleza de diversos planos. Desta vez os fantasmas são os amantes, que só se sentem vivos em seus momentos de paixão. Mas que não podem assumir a relação pela precariedade financeira de ambos. “Você não pode amar sem dinheiro” é a citação memorável do filme. De fato, a ênfase está (na falta de) dinheiro dos personagens, e Petzold filma com algum interesse o funcionamento dos negócios do marido corno. Ele é o verdadeiro centro dramático de Jericó, um imigrante grego iludido pelo ideal de sucesso do capitalismo. Empresário de sucesso, casado com uma loira pela qual praticamente comprou, ele acredita com alguma sinceridade no amor da esposa e na amizade de seu funcionário. Sua tragédia é que a realidade não bate com suas ilusões.

Barbara1

Barbara (2012)

Barbara é uma médica que vive, trabalha e planeja uma fuga da Alemanha Oriental em 1980. E é o mais emotivo dos filmes de Christian Petzold. Se os personagens agem de forma fria é porque o regime em que vivem assim exige: todos têm consciência de que vigiam e são vigiados. Como os críticos Filipe Furtado e Bruno Cursini já apontaram, o filme não tem nenhum dos fetiches típicos de “filmes de vigilância”. A paranóia e a opressão estão nos olhares e na linguagem corporal dos atores. Mas aos poucos, sempre que possível, os verdadeiros pensamentos e sentimentos deles afloram. Com isso Barbara joga uma nova luz em seus filmes anteriores. Aos olhos de Petzold, o que vale para a Alemanha antes da queda do muro vale, por motivos diferentes, para a Alemanha depois da queda: uma sociedade que sufoca a humanidade de seus integrantes.

Invasion | o berço da violência

A Mostra SP terminou. Pensei em escrever sobre os filmes que mais gostei, mas mudei de ideia quando percebi que a maioria deles irá estrear no Brasil (permitindo uma revisão minha com calma, sem a correria do festival) ou foi dirigido por algum cineasta conhecido (portanto, um filme que já foi muito discutido pela crítica).

Por isso decidi escrever por enquanto apenas sobre Invasion, um filme alemão o qual gostei muito na Mostra, mas foi pouco visto pelo público e crítica, já que foi dirigido por um cineasta praticamente desconhecido: o georgiano Dito Tsintsadze, autor de Medo de Matar, um interessante filme alemão de 2003.

O protagonista de Invasion é Joseph (Burghart Klaußner), um solitário senhor de cinquenta anos que mora isolado em sua mansão – é viúvo e perdeu um filho adolescente anos atrás. Ele conhece Nina, que diz ser uma parente distante de sua esposa. Em pouco tempo, Joseph também conhece – o filho dela; a mulher dele; o filho pequeno do casal – e os convida para morarem em seu casarão. E, por fim, o namorado de Nina, um sujeito que não inspira a menor confiança desde sua primeira aparição.

A dúvida que surge desse cenário inicial é óbvia: estamos vendo um filme sobre o surgimento de uma nova família para Joseph? Ou ele está sendo vítima de um grupo de vigaristas ou de criminosos ainda mais perigosos? O que se segue é um primoroso, mas discreto, trabalho em mise-en-scène. O cineasta Dito Tsintsadze sabe onde por a câmera e como movimentá-la para nos revelar o caráter de cada personagem – seja a fraqueza de alguém; ou um triângulo amoroso sendo antecipado pela câmera muito antes de ser concretizado. Além disso, o cineasta encontra soluções inteligentes para filmar cada um dos aposentos da mansão, usando esses espaços para criar tensão (e humor) nesses corredores e nessas pessoas.

Não é um filme perfeito. No terceiro ato de Invasion, Dito Tsintsadze mostra dificuldade em sustentar a credibilidade de certas situações. Também é verdade que o desfecho do filme recebeu algumas críticas por “ser feliz”. Mas esse final é perfeitamente coerente com a idéia subversiva que orienta o filme desde o princípio: a família como o berço da violência, e vice-versa.

Invasion (2012). Dirigido por Dito Tsintsadze.

Hotel Mekong | Apichatpong e seu filme simples

Uma cena, simples e direta, pode explicar as intenções de Apichatpong Weerasethakul em seu novo filme: um personagem, experimentando roupas, reclama que só tem camisas estampando “Joe” (este é apelido de Apichatpong na mídia internacional). Talvez “Joe” tenha receio de que seu cinema se torne um repetitivo slogan de camisa. Uma preocupação compreensível para quem ganhou a Palma de Ouro por possivelmente seu melhor filme, Tio Boonmee que Pode Recordar suas Vidas Passadas. Hotel Mekong soa como um rascunho para novas possibilidades. É verdade que o tom sereno com que filma um hotel assombrado por fantasmas canibais e embaralha sonho e realidade não surpreenderá seus fãs. Mas, por ter limitado suas filmagens a um local apenas, Apichatpong fez um filme surpreendentemente despojado, simples até para os padrões dele (e, para os detratores, simplório). Com poucos cortes, sua câmera permanece quase imóvel e indiferente aos acontecimentos, minimalizando as situações estranhas. Por vezes “Joe” parece preferir contemplar à distância as paisagens do rio Mekong (que separa a Tailândia do Laos). Hotel Mekong não se equivale a seus melhores filmes, mas está longe de ser uma obra menor, equivocada ou descartável do cineasta.

Hotel Mekong (2012). Dirigido por Apichatpong Weerasethakul.

O Círculo Cromático | estrutura convencional e um trunfo no final

Durante boa parte de sua projeção, The Color Wheel (dirigido e estrelado por Alex Ross Perry) parece seguir o estereótipo de filmes mumblecore: uma comédia de baixo-orçamento, muitos diálogos com tendência à misantropia, protagonistas fracassados e egocêntricos. O filme é um road-movie acompanhando dois irmãos (o próprio Perry e Carlen Altman; a dupla também escreveu o roteiro), fracassos completos em suas vidas pessoais e profissionais, reclamando de tudo e de todos, inclusive um do outro, em situações socialmente desconfortáveis e/ou absurdas. Tão absurdas que por vezes o filme parece despreocupado em querer construir um sentido ou algo assim. A partir dessa estrutura convencional, Alex Ross Perry consegue um bom timing cômico e boas composições com seu preto-e-branco em 16 mm. Mas seu verdadeiro trunfo é um quase monólogo no final, um impactante plano-sequência de nove ou dez minutos que, mais do que uma firula que chama a atenção para si própria, nos dá uma nova perspectiva aos personagens e ao restante do filme. Tenho sérias dúvidas se é mesmo o grande filme que parte da crítica americana insistiu, mas Alex Ross Perry é um nome a ser lembrado.

O Círculo Cromático (2011). Dirigido por Alex Ross Perry.

A Grande Festa do Cinema | cinefilia indulgente

Em Manila nas Filipinas, Raya Martin registra o encontro entre diversas pessoas ligadas ao cinema, visitando locais tanto de batalhas durante a Segunda Guerra quanto cenários de filmes filipinos. De modo geral eu achei o filme de uma cinefilia tediosamente indulgente e autocongratulatória (“eu adoro os DVDs da Criterion Collection” alguém diz a certa altura). O único filme de Raya Martin que tinha visto até então, Independência (2009), recebeu acusações de ter sido feito para agradar os cinéfilos. Mas acredito que aquele filme tem uma exatidão maior em suas escolhas estéticas do que este, supostamente despretensioso.

A Grande Festa do Cinema (2012). Dirigido por Raya Martin.

Shame | as certezas de Steve McQueen pesam demais

Shame retrata Brandon (Michael Fassbender), um homem doente, um viciado em sexo, especialmente com desconhecidos e sem ligação emocional. Simples assim. Este personagem jamais admira as possibilidades e prazeres de sua condição, como por exemplo os protagonistas do cinema de David Cronenberg (em Crash, 1996, mas não só). O rosto de Fassbender nas várias cenas de sexo demonstra apenas angústia – prazer, nunca.

O diretor Steve McQueen não explica as origens do problema de Brandon (ele dá dicas de uma infância ruim). Prefere olhar para o mundo ao redor dele. Ele filma os espaços do filme como não-lugares: apartamentos, ruas, trens, hotéis, bares, escritórios; todos se parecem em sua ausência de detalhes pessoais e afetivos. É o diagnóstico do diretor de uma sociedade fria, superficial e descartável, que estimula relações idem – não só de Brandon. Este diagnóstico será confirmado repetidas vezes ao longo do filme.

O contraponto seriam as relações afetivas significativas. Sim, a família. No caso, a irmã de Brandon (Carey Mulligan, no filme uma versão feminina do irmão, sempre dormindo com o homem errado). Este contraste fica claro perto do final do filme, numa sequência intercalando a irmã emocionalmente frágil deixando pedidos de ajuda no celular de Brandon, enquanto ele faz sexo numa casa noturna gay e depois um ménage à trois com duas prostitutas. Pouco depois, Brandon entenderá que chegou ao fundo do poço enquanto caminha pelas ruas. Chorando. Chovendo. Ficando de joelhos e olhando para o céu. Sutileza não é o forte de McQueen.

O primeiro filme desse diretor, Hunger (2008), é um drama político sobre a famosa greve de fome de membros do IRA numa prisão da Irlanda do Norte nos anos 80. Contudo, Hunger despertou a suspeita de que o diretor se importava mais com os planos longos e elaborados do que com o que filmava. Infelizmente, Shame confirma essa desconfiança. Apesar dos personagens opacos, da narrativa elíptica, do final em aberto, McQueen sempre deixa muito claro seu ponto de vista, e suas certezas pesam demais em Shame. Sem dúvida todo grande filme tem um ponto de vista de seu cineasta sobre o que filmou. Mas todo grande filme também tem cantos onde o olhar de seu autor se turva e já não temos a mesma certeza do que vemos. Steve McQueen ainda não entendeu isso.

Shame (2011). Dirigido por Steve McQueen.

Jogos Vorazes | nem autoral nem artesanal o bastante

Jogos Vorazes (2012) retrata uma sociedade futurista que gira em torno de um espetáculo televisivo violento, uma arena onde adolescentes lutam até a morte. Provavelmente é injusto cobrar deste filme um olhar mais pessoal ou autoral de seu diretor, Gary Ross. Os melhores cineastas sabem como contornar limitações em trabalhos de encomenda. Mas boa parte destas franquias baseadas em best-sellers (Harry Potter, Crepúsculo, etc) são muito eficientes em castrar esse olhar pessoal de seus realizadores. Ross, por exemplo, não consegue trabalhar ou problematizar no filme o fato de que os jogos são um show de TV.

Durante uma conversa com Felipe Moraes, ele especulou como seria Jogos Vorazes se dirigido por Mark Neveldine e Brian Taylor (Motoqueiro Fantasma, 2011). Respondi que eles já tinham feito este filme, Gamer (2009). Goste-se ou não daquele filme, sua montagem videoclipe/videogame e seu visual agressivo, quase experimental, expressavam o inferno capitalista daquele mundo futurista. Um autêntico filme de autor(es). Jogos Vorazes não tem esse olhar pessoal. Mas poderia ser uma aventura atraente com um bom artesanato: narrativa eficiente, cenas de ação, etc. Infelizmente, Ross também não tem essa capacidade.

As limitações dele como diretor ficam mais evidentes durante a segunda parte do filme (o treinamento, os jogos). Por exemplo, num filme de pouco mais de duas horas não é mesmo possível conhecer cada um dos 24 participantes da arena. Mas um cineasta melhor tentaria tornar os jogadores, ao menos os importantes, em figuras interessantes. Seja através do tipo físico dos atores, ou de um figurino diferenciado, etc, ele poderia tentar sugerir algo sobre a personalidade deles ou de onde vieram. Infelizmente os lutadores, apesar das supostas diferenças (étnicas, de classe social, e de faixas etárias), parecem recrutados pela mesma agência de modelos. A narrativa é outra deficiência: em nenhum momento fica claro quais são as regras do jogo (constantemente quebradas pela gerência do programa, verdade) ou quantos adversários faltam para a partida acabar.

Acreditem, queria ter gostado mais de Jogos Vorazes, pois acho um filme simpático, principalmente por causa de sua protagonista (Jennifer Lawrence, já uma especialista em garotas de coragem). Destemida e independente, é uma das heroínas mais interessantes a surgir nestes blockbusters recentes. É ela quem garante nossa atenção.

Jogos Vorazes (2012). Dirigido por Gary Ross.

Drive | um lamento por um cinema que não existe mais

Drive é um filme sobre sonhos quebrados. Por isso Los Angeles é o cenário perfeito para ele. Ninguém é realmente importante no filme, todos são peças descartáveis da indústria do cinema. O anti-herói sem nome (Ryan Gosling, excelente em ficar de boca calada) é mecânico de uma oficina e dublê para filmes de Hollywood. E, claro, motorista para assaltantes em fuga. A mocinha é uma garçonete adorável e emocionalmente vulnerável (em duas palavras: Carey Mulligan). E os vilões (Albert Brooks e Ron Perlman) são gângsteres nada poderosos. Drive em nenhum momento tenta fingir que não recicla material que já tinha perdido a validade nos anos 80.

É o dinamarquês Nicolas Winding Refn quem dirige o filme, o primeiro longa americano de sua filmografia. Não se trata de um projeto pessoal dele. Ele foi convidado para dirigi-lo por Goslin, astro do filme. Isso não é um problema aqui (ou em qualquer outro filme, aliás). É só uma questão de entender que Drive foi planejado inicialmente para fazer Goslin brilhar – algo em que é bem-sucedido, aliás.

Refn acrescenta a este veículo de estrela um toque que pode ser descrito, de forma caricatural até, como “europeu”: tempos mortos, personagens opacos, uma sensibilidade musical realmente bela. É um filme bonito de ver e escutar. Mas Refn, talvez fascinado por fazer um policial americano, também presta reverência ao cinema americano clássico: o rigor na composição de planos, a precisão na mise-en-scène. Irrita a tendência do diretor em ser professor de semiótica (simbolismos como a máscara sem detalhes faciais que o motorista usa, etc). É, ou deveria ser, mais um filme de atmosfera do que de grandes significados.

Por fim, Drive é um lamento por um cinema que não existe mais. Uma nostalgia perigosa (como toda nostalgia), pois esse cinema jamais existiu, certamente não dessa forma idealizada. Mas Refn, enquanto o filme dura, nos faz acreditar nesse cinema nostálgico. E esse cinema, tal qual o motorista na cena final de Drive, sobrevive à sua morte certa e vive para lutar outro dia.

Drive (2011). Dirigido por Nicolas Winding Refn.