Cosmópolis | notas

Seguem cinco observações sobre o filme:

1 | Parece faltar ao filme a precisão que geralmente se espera de Cronenberg. Muitas vezes tive a impressão de que um diálogo se esgotou e o filme ia seguir para outra cena, apenas para o diálogo continuar e continuar.

2 | É um filme muito dialogado. Curioso detratores de Um Método Perigoso celebrarem este aqui como uma volta à velha forma do cineasta, pois ambos são parecidos, ao menos em sua natureza teatral.

3 | Cronenberg estabelece de forma muito clara um confronto entre o espaço externo (caótico, vivo) e o interior da limousine (controlável, estéril). A preferência do cineasta pelo primeiro é evidente; não por acaso o interior da limousine lembra um caixão.

4 | A jornada do protagonista (Robert Pattinson, perfeito em sua apatia) envolve, entre outras coisas, remover gradualmente sua segurança (às vezes de forma muito literal!) e encarar o mundo real. E, como em todo Cronenberg, paga alto preço por isso.

5 | O filme acaba sendo menos “a obra-prima do novo milênio” e mais como um experimento para os próximos filmes de David Cronenberg.

Cosmópolis (2012). Dirigido por David Cronenberg.

Shame | as certezas de Steve McQueen pesam demais

Shame retrata Brandon (Michael Fassbender), um homem doente, um viciado em sexo, especialmente com desconhecidos e sem ligação emocional. Simples assim. Este personagem jamais admira as possibilidades e prazeres de sua condição, como por exemplo os protagonistas do cinema de David Cronenberg (em Crash, 1996, mas não só). O rosto de Fassbender nas várias cenas de sexo demonstra apenas angústia – prazer, nunca.

O diretor Steve McQueen não explica as origens do problema de Brandon (ele dá dicas de uma infância ruim). Prefere olhar para o mundo ao redor dele. Ele filma os espaços do filme como não-lugares: apartamentos, ruas, trens, hotéis, bares, escritórios; todos se parecem em sua ausência de detalhes pessoais e afetivos. É o diagnóstico do diretor de uma sociedade fria, superficial e descartável, que estimula relações idem – não só de Brandon. Este diagnóstico será confirmado repetidas vezes ao longo do filme.

O contraponto seriam as relações afetivas significativas. Sim, a família. No caso, a irmã de Brandon (Carey Mulligan, no filme uma versão feminina do irmão, sempre dormindo com o homem errado). Este contraste fica claro perto do final do filme, numa sequência intercalando a irmã emocionalmente frágil deixando pedidos de ajuda no celular de Brandon, enquanto ele faz sexo numa casa noturna gay e depois um ménage à trois com duas prostitutas. Pouco depois, Brandon entenderá que chegou ao fundo do poço enquanto caminha pelas ruas. Chorando. Chovendo. Ficando de joelhos e olhando para o céu. Sutileza não é o forte de McQueen.

O primeiro filme desse diretor, Hunger (2008), é um drama político sobre a famosa greve de fome de membros do IRA numa prisão da Irlanda do Norte nos anos 80. Contudo, Hunger despertou a suspeita de que o diretor se importava mais com os planos longos e elaborados do que com o que filmava. Infelizmente, Shame confirma essa desconfiança. Apesar dos personagens opacos, da narrativa elíptica, do final em aberto, McQueen sempre deixa muito claro seu ponto de vista, e suas certezas pesam demais em Shame. Sem dúvida todo grande filme tem um ponto de vista de seu cineasta sobre o que filmou. Mas todo grande filme também tem cantos onde o olhar de seu autor se turva e já não temos a mesma certeza do que vemos. Steve McQueen ainda não entendeu isso.

Shame (2011). Dirigido por Steve McQueen.