Invasion | o berço da violência

A Mostra SP terminou. Pensei em escrever sobre os filmes que mais gostei, mas mudei de ideia quando percebi que a maioria deles irá estrear no Brasil (permitindo uma revisão minha com calma, sem a correria do festival) ou foi dirigido por algum cineasta conhecido (portanto, um filme que já foi muito discutido pela crítica).

Por isso decidi escrever por enquanto apenas sobre Invasion, um filme alemão o qual gostei muito na Mostra, mas foi pouco visto pelo público e crítica, já que foi dirigido por um cineasta praticamente desconhecido: o georgiano Dito Tsintsadze, autor de Medo de Matar, um interessante filme alemão de 2003.

O protagonista de Invasion é Joseph (Burghart Klaußner), um solitário senhor de cinquenta anos que mora isolado em sua mansão – é viúvo e perdeu um filho adolescente anos atrás. Ele conhece Nina, que diz ser uma parente distante de sua esposa. Em pouco tempo, Joseph também conhece – o filho dela; a mulher dele; o filho pequeno do casal – e os convida para morarem em seu casarão. E, por fim, o namorado de Nina, um sujeito que não inspira a menor confiança desde sua primeira aparição.

A dúvida que surge desse cenário inicial é óbvia: estamos vendo um filme sobre o surgimento de uma nova família para Joseph? Ou ele está sendo vítima de um grupo de vigaristas ou de criminosos ainda mais perigosos? O que se segue é um primoroso, mas discreto, trabalho em mise-en-scène. O cineasta Dito Tsintsadze sabe onde por a câmera e como movimentá-la para nos revelar o caráter de cada personagem – seja a fraqueza de alguém; ou um triângulo amoroso sendo antecipado pela câmera muito antes de ser concretizado. Além disso, o cineasta encontra soluções inteligentes para filmar cada um dos aposentos da mansão, usando esses espaços para criar tensão (e humor) nesses corredores e nessas pessoas.

Não é um filme perfeito. No terceiro ato de Invasion, Dito Tsintsadze mostra dificuldade em sustentar a credibilidade de certas situações. Também é verdade que o desfecho do filme recebeu algumas críticas por “ser feliz”. Mas esse final é perfeitamente coerente com a idéia subversiva que orienta o filme desde o princípio: a família como o berço da violência, e vice-versa.

Invasion (2012). Dirigido por Dito Tsintsadze.